Preço baixo ameaça a recuperação do cacau brasileiro

 

Após queda de 18% em seis meses, valor da arroba da amêndoa na Bahia não paga os custos de produção.
Desvalorização pode reduzir investimentos e interromper avanço da produção, que subiu 59% em cinco anos.
A recuperação da produção brasileira de cacau -praticamente dizimada pela doença da vassoura-de-bruxa na década de 1990- está ameaçada pelo baixo preço da amêndoa, que não paga os custos de produção.
A arroba de 15 quilos está sendo negociada a R$ 66 na Bahia, principal produtor do país. Até setembro do ano passado, a arroba era vendida em torno de R$ 80.
A desvalorização é reflexo dos preços internacionais, que caíram 30% em 12 meses, para US$ 2.108 por tonelada ontem na Bolsa de Nova York.
“Estamos trabalhando no prejuízo”, diz Guilherme Galvão, presidente da Associação dos Produtores de Cacau.
O consultor independente Thomas Hartmann, da TH Consultoria, diz que, aos valores de hoje, o produtor brasileiro de fato opera no vermelho, e teme um retrocesso.
“Entre 2008 e 2010, os preços foram remuneradores, possibilitando tratos culturais mais intensos e renovação das plantações com variedades mais resistentes.”
Os investimentos possibilitaram aumento de 59% na produção brasileira entre a safra 2006/07 e a passada, que somou 200 mil toneladas segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO).
Agora, com a rentabilidade comprometida, a tendência é que os produtores reduzam a aplicação de tecnologia nas plantações, o que deve interromper o ritmo de recuperação, diz Hartmann.
Se o clima também não ajudar, poderá haver queda.
A projeção da consultoria para a safra 2011/12 -com início em setembro e término em outubro deste ano- é de cerca de 195 mil toneladas.
O volume não é suficiente para abastecer o consumo interno. Como a capacidade de processamento das indústrias é de 230 mil toneladas por ano, o Brasil é obrigado a trazer cacau do exterior.
Em 2011, foram importadas 32,5 mil toneladas, o equivalente a US$ 91 milhões.
PRODUTIVIDADE
Segundo especialistas, é difícil estimar um custo médio de produção no Brasil, pois os sistemas de plantio variam conforme a região.
Mas apontam que o valor da mão de obra, sozinho, já é suficiente para desabilitar o país a competir com os atuais líderes mundiais, Costa do Marfim e Gana.
“Pagamos US$ 600 por mês a um trabalhador, considerando salário mínimo e obrigações. Nos países africanos, o custo é de US$ 80 por mês”, diz Galvão.
Como o nível de renda e de exigências ambientais -que também elevam os custos- não devem cair, a saída para manter o cacau atrativo do ponto de vista financeiro é o aumento da produtividade, afirma Jay Wallace Mota, diretor da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), ligada ao Ministério da Agricultura.
“É possível duplicar a produtividade para 40 arrobas por hectare na Bahia. O gargalo não é tecnológico”, diz.
Segundo Mota, o problema é que boa parte dos produtores ainda não se recuperou da crise dos anos 1990. A maioria permanece endividada e não consegue novos empréstimos para investir.
A dívida total soma R$ 900 milhões. “Desde 2008, 49% desse volume foi renegociado, mas ainda falta um percentual importante”, afirma.
A Ceplac pretende, nos próximos dez anos, aumentar a produção brasileira para um volume entre 400 mil e 500 mil toneladas por ano.
Fonte: Folha de São Paulo Tatiana Freitas – Recebido por e-mail
Ascom-Rezende