CEPLAC 60 ANOS

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Não sei por que, preferi o desafio, mesmo com a passagem nas mãos enviada pela SUDENE que, inclusive, ficaria mais perto de casa, Maceió/AL, minha origem.

Cheguei à região no dia 22 de janeiro de 1963, com o furor da juventude, ávido em aprender e crescer na ciência que escolhera a do solo, conseguindo tal intento a expensas dos “frutos de ouro”, a quem sou grato eternamente, abençoado por esta ESCOLA-CEPLAC.

E em pouco tempo, a Instituição se agigantou, abriu novos escritórios de extensão, edificou o CEPEC, treinou seu pessoal e passou a prover a região de informações e apoio, repercutindo as suas ações em produção e produtividade para a lavoura, além das melhorias infraestruturais.

Além da disponibilidade e flexibilidade dos recursos, a CEPLAC contava com cabeças pensantes, tanto vindas do Banco do Brasil, Organização que primava pela decência e ética profissional, como os iniciantes na Casa e, sobretudo, a vinda do Dr Paulo Alvim, que estabeleceu a Doutrina da Excelência Profissional, facultando treinamentos, viagens e congressos àqueles com vocação para a Pesquisa. E, capitaneando, tudo, Zé Haroldo, a quem a agricultura brasileira tanto deve, mesmo sem ele nunca ter frequentado uma Faculdade de Agronomia.

Dessa forma, a CEPLAC passou a ser um exemplo Institucional, que norteou a implantação da EMBRAPA e até foi “carimbada” em livro pelo IICA/OEA. Desnecessário elencar os resultados nos diversos âmbitos do desenvolvimento rural integrado sul baiano, os quais estão memorizados no livro – TRIBUTO À ANTIGA CEPLAC, INSTITUIÇÃO AGRÍCOLA ÚNICA (Scortecci Editora/SP) – elaborado por mim e pelos colegas Manoel Malheiros Tourinho e José Alexandre de Souza Menezes, protagonistas e autores da sua história.

Pois bem, novas gerações do cacau! Esta CEPLAC, 2017, nada tem a ver com a nossa. Uma Organização sem líderes; gerentes pegos a laço valendo a submissão política do que a capacidade técnica; servidores amofinados e desestimulados; recursos aminguados e, o que é pior, o viver um presente de passado, sem visão de futuro.

Vale a pena, citar o testemunho de um colega da velha guarda que mora na região e também labuta com a terra: – O atual cenário desta CEPLAC que descreve é muito pior as suas instalações: estações experimentais; escritórios locais; na própria sede regional, um cenário degradante de completo abandono, tudo sendo destruído. Não existem recursos, o comando sem rumo, a pesquisa está agregada á extensão. Complementando, outro da ativa reconheceu que a única alternativa é a EMBRAPA, pois não mais existem condições de acompanhar os avanços tecnológicos, exemplificando o obsoletismo do laboratório de análises de solos, que outrora fora padrão nacional.

Aproveito para tirar o chapéu aos colegas que, mesmo remando contra a maré, continuam trabalhando com profissionalismo e respeito à Casa. Chegou-se a um ponto de insolvência institucional que não se sabe o que fazer com a CEPLAC. De repente, o MAPA rebaixa o seu “status”; de outra, o fantasma EMBRAPA fazendo medo. Na base ridícula do toma que o filho é teu!

Mesmo assim, assisti um Dirigente enaltecer um Órgão, tão efusivamente, que fiquei por um momento emocionado, mas depois voltei a mim e entendi que ele se referia à CEPLAC, significando delírio, pois muitos dos que o assistiam assim concluíram. E produtores de cacau – pasmos – me informavam que ela não servia para nada e até era cognominada de museu vivo.

Só três coisas da minha CEPLAC e da de tantos outros colegas que a dignificaram, verdadeiros expoentes de tempos idos, para que o prezado leitor reflexione:

No nosso tempo, o acesso aos cargos da CEPLAC era preenchido segundo o mérito e a experiência. O “lobby” era o seu trabalho, dedicação, sacrifício e comprometimento institucional. Carlos Brandão, primeiro Secretário-Geral da CEPLAC enfatizava e enaltecia o espírito de corpo, como condição essencial ao respeito à CEPLAC e conduta dos servidores.
A CEPLAC possuía condições excepcionais de gestão com autonomia financeira que a tornava ágil e proficiente, cujo corpo funcional seguia o decálogo do cultivo ao idealismo.
Tínhamos um compromisso inalienável com o produtor de cacau; trabalhávamos em tempo integral; e colocávamos a Instituição acima dos nossos interesses pessoais.
Finalizando. 60 anos se passaram daquele embrião de Tosta Filho. Comparando as duas Organizações, a que me formou e esta que agoniza e só serve para usufruto dos políticos, nada se tem a reverenciar, infelizmente.

Talvez, estes deveriam aproveitar o momento, sobretudo por não terem nenhum sentimento institucional, escreverem o seu epitáfio, ao invés de comemorações que, à luz do momento caótico que passa a lavoura, em cujo epicentro o produtor se insere como a maior vítima, são, no mínimo, despropositais.

Fonte: R2CPRESS
Decom: Fabiana

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